Culpa sustentável por Judith Brito

Divirta-se com Judith Brito, mais uma vez, fazendo refletir de uma forma leve.
 
 

Culpa sustentável

 
sem-agua-e-sem-luz Meu pai sempre dizia que devíamos agradecer pela vida que temos, porque tudo se torna cada vez mais fácil, e a qualidade de vida é incomparavelmente melhor. Ele tinha razão: confrontando sua infância e juventude com as nossas (de seus filhos), muita coisa evoluiu, a começar pela universalização do ensino público. Melhor ter a missão de elevar a qualidade do ensino do que simplesmente não poder ir à escola, como antes. Mas – e sempre há um mas –, nem tudo são flores. Meu pai não viveu para presenciar os tempos de escassez mais intensa de insumos básicos, como reza a música: “De dia falta água, de noite falta luz”. Diante dessa situação, que agudiza um sentimento de responsabilidade de todos pela preservação do planeta, estamos nos tornando seres neuróticos, permanentemente preocupados e culpados.
 
sem-agua-banho-improvisadoMal acordamos e já vem o aviso mental, em placas luminosas (ainda bem que não exigem energia elétrica!): “NÃO DESPERDICE ÁGUA!” Imediatamente é preciso planejar a ação: escovar os dentes abrindo a torneira do banheiro só para o enxague – e rápido. Mais um alerta: se usar o vaso sanitário para descarte, digamos, apenas líquido, reflita se pode aguardar mais algum uso para então dar a descarga. E o banho também será uma ginástica: é preciso coletar a água em aquecimento (para reuso), e depois agir como os times que trocam pneus nas corridas de Fórmula 1, correndo contra o tempo e o desperdício.
 
sem-agua-lavar-a-louca-na-bacia Usar a cozinha também merece um plano de guerra: nada de deixar a torneira aberta enquanto se ensaboa a louça. Aliás, alguns amigos estão usando pratos e copos descartáveis. Reflito com meus botões: pensando no que é melhor para a natureza, será que a conta final fecha? Há redução de gasto de água em casa; mas, e na fabricação dos utensílios plásticos (sem contar a energia elétrica)? Dilemas de minha porção “dona de casa”…
 
reutilizando-o-jornal Sem contar a papelada que venho acumulando em casa, pensando em reuso. Sinto-me culpada se jogo fora qualquer tipo de papel, partes de cadernos velhos, agendas antigas, contas etc. Podem ser úteis para a troca de recados com a querida Elisa, minha assessora caseira, com quem raramente encontro: quando saio pro trabalho, ela ainda não chegou; quando volto, ela já foi. Para facilitar minha vida, ela deixa perguntas sobre tarefas, sempre com opções para eu apenas assinalar com um X. Por exemplo: “Compro mais frutas? ( ) SIM ou ( ) NÃO”. Que eficiência! Voltando aos papéis: nem que eu viva 200 anos conseguirei trocar tantos bilhetes com a Elisa para justificar a pilha acumulada…
 
saco-de-lixo-verde-reciclavel Agora, estou realmente apavorada com a questão do lixo. O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, determinou que se deve colocar lixos recicláveis apenas em sacolas plásticas verdes, feitas de cana-de-açúcar. Ai de quem colocar lixo orgânico nesses sacos! Vou obedecer, é claro, embora questione a utilidade desse cuidado, já que não há coleta seletiva de lixo em minha rua. Ou seja, vou quebrar a cabeça para classificar, separar e acondicionar meu lixo, para depois tudo ser misturado de novo?
 
recicla-me-ou-te-devoro Cada ato trivial exige uma decisão metafísica. Antes, lixo era lixo, pronto. Agora, cada vez que preciso descartar algo no trabalho, vejo-me diante de seis recipientes: azul para papel e papelão; amarelo para metal; verde para vidro; vermelho para plástico; marrom para orgânicos; cinza para não recicláveis. A sensação é a de Teseu diante do Labirinto de Dédalo – tendo o Minotauro no encalço. Por exemplo: um guardanapo de papel usado (manchado de molho) é papel ou orgânico? Um dia, eu me vi diante das latas coloridas, tentando decidir o que fazer com um chiclete (muito) mascado. Pensei: deve ser um tipo de borracha. Jogo no recipiente de plástico? Ou, por estar mastigado, é orgânico? Ou seria não reciclável? Diante do dilema, e mesmo correndo o risco de ter as tripas grudadas –, optei por engolir a goma. Com tanta indecisão, já decidi: vou fazer um curso de Teoria dos Jogos. Do trabalho na empresa eu dou conta; já das decisões sobre o lixo…
 
 

A escritora

 
judith britoJudith Brito tem 57 anos, nasceu em Itatiba, São Paulo. É autora dos livros “Mãe é Mãe” (Publifolha), “Ah! O amor” (Publifolha), “A metade ideal” (Sá Editora) e “Causos Itatibenses” (Tuva Editora).
 
 
 

 

  • Leia Manual do Elevador por Judith Brito
  • Realmente o sustentável vira uma neura, ainda mais com tudo junto e misturado.
  • O planeta pede socorro.
  • Com pequenas atitudes podemos ajudar a melhorar o planeta.
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